O RIO DE JANEIRO EM JANEIRO
O RIO DE JANEIRO EM JANEIRO

Sou carioca legítimo, nascido e criado na Cidade Maravilhosa, amo de paixão minha cidade e cuspo na cara de que fala mal dela, mas o Rio de Janeiro em janeiro, definitivamente, não é minha praia.

Não que eu me recuse a ir à praia, caminhar no calçadão, freqüentar quiosques e beber litros e litros de água de coco. Nada disso. Sei entrar no clima. Mas é que o verão no Rio para quem não está de férias é algo de tirar do sério até o Dalai Lama.

Trabalhar ou mesmo se deslocar para o trabalho sob um sol sufocante de 40 graus no Rio de Janeiro é tarefa que mereceria até um projeto de lei criando a aposentadoria precoce para os cariocas aos 35 anos... DE IDADE!

Sim, acho que nós, habitantes dos trópicos, merecíamos trabalhar menos do que pessoas como meu amigo internético Rogério, que mora em Lages, e volta e meia comenta comigo sobre suas caminhadas noturnas com um leve friozinho em janeiro após um delicioso jantar com vinho enquanto derreto aqui no Rio mesmo com o ar condicionado ligado.

Além do calor, tem as chuvas, como citarei abaixo. Chuva é algo que fica bonitinha quando é vista de dentro de casa. Pois lá fora, meu amigo, o bicho pega. Aqui no Rio, em janeiro, quando chove, CHOVE PRA CARALHO!

Como acredito no potencial das listas, melhor fazer este post em forma de lista: 8 motivos para que eu não ache o verão esta festa toda – ou, melhor dizendo, 8 motivos para detestar o Rio de Janeiro em janeiro.

1 - SOL E CHUVA, CASAMENTO DE VIÚVA
No caso do Rio, o verão tem essa particularidade profundamente irritante: Você sai de casa, debaixo de um sol saariano, e de repente leva um pancadão de água na cabeça. Ah... Você vai dizer: "Isso é bom, a chuva refresca!" Só se for na sua cidade, para-pálida. Aqui no Rio, os pancadões aumentam a temperatura em 5 graus. A cidade que era um grill George Foreman, vira sauna marroquina a vapor.

2 - TRANSPORTE
O calor não é um problema no metrô e na maioria dos busões, pois tem ar condicionado. O grande problema são os TÁXI SAUNA. Não sei como é na sua cidade, mas aqui no Rio de Janeiro, boa parte dos taxistas estão com uma mania nojenta: Eles só ligam o ar condicionado quando você entra no veículo. Os caras rodam no sol quente de 40 graus com o ar condicionado desligado pra economizar uns tostões. E você quando entra no veículo, tem a mesma sensação de atravessar o portal do inferno pra sentar no colo do capeta. Se você vai fazer uma corrida curta, de digamos uns 15 ou 20 minutos, o bicho pega. Pois não tem jeito de o veículo ficar refrigerado neste tempo. Conclusão: Você que optou pegar um táxi justamente pelo conforto, vai acabar chegando ao seu destino suado, melado, seboso e fedorento como se tivesse pego um trem. E graças ao seu sofrimento, o taxista economizou 17 centavos de gasolina!

3 - RODELAS NO SUVACO
Não é o meu caso, porque me previno com o velho e bom banho, um bom desodorante e ainda uso uma camiseta branca por baixo da social (o calor não fica maior nem menor). Mas é deprimente ver as pessoas com aquelas rodelas nojentas embaixo do braço. E mais deprimente ainda quando elas nos proporcionam odores semelhantes a de uma jaula de gorila.

4 - ROUPAS
Por mais que você lute, qualquer roupa vai te deixar com calor. Conforme-se com isso.

5 - FESTAS, BALADAS E BARZINHOS
No verão, torna-se suicídio escolher um programa em local sem ar-condicionado. Qualquer lugar sem ar, ou mesmo ao ar livre mas com restrições (tipo, “aberto”, como certos barezinhos) se torna o Inferno de Dante.

6 - A ALEGRIA INCONTIDA
As TVs parecem querer nos convencer que tudo está maravilhoso. Creio que é influência do “Here comes the sun” dos ingleses – estes sim, precisam soltar fogos por causa do surgimento de um sol de 40 graus. Não vejo as TVs criarem símbolos para celebrarem a piedade, a clemência, quando a temperatura cai para níveis humanos em maio ou junho. Só vejo um maldito solzinho nas campanhas de verão e nas “programações de verão” de filmes e programas “jovens”. A associação de “verão” com “jovem” também é irritante, porque se baseia e consolida logo em seguida uma tese meio furada: a de que “jovem” não trabalha, fica o dia todo surfando. Aliás, eu nunca entendi o gigantesco nicho de mídia existente para o público de surfe. Em cada praia, do total da população, qual a porcentagem de surfistas? Qual a última vez em que você foi assistir, in loco, a uma competição de surfe, na arquibancada, torcendo e gritando “Tu és/Surfista de tradição/Raça, amor e paixão”? Quando você conseguiu assistir na TV a um programa sobre surfe INTEIRO, do início ao fim, sem que fosse apenas um programa apresentado pela Dora Vergueiro e pela Luiza Althenhoffen seminuas (aí não se trata de surfe)?

7 - PRONTO PARA SUAR
No verão, o sujeito toma banho – seja quente ou frio – e sai do chuveiro, se enxuga e começa a se arrumar para trabalhar. Se o sapato ou a meia ou uma calça específica demandarem mais de cinco minutos de procura – é comum ter dificuldade de achar um par de meias – o sujeito JÁ ESTÁ SUADO e pronto para voltar pro banho. Aí ele olha para o relógio e pensa: “Fudeu”. Já vai ter que sair suado de casa.

8 - A OBRIGAÇÃO DE SER E ESTAR "VERÃO"
No verão, quem não está com saco de ir à praia vira um subversivo perigoso. Quem fala mal do calor abrasivo do Rio de Janeiro é tido como um pária. Se reclamarmos do sol inclemente que transforma capôs de carros em chapeiras de hambúrguer somos perseguidos como bruxas da Idade Média. No verão, somos cafonas se não gostamos de andar por aí com sandálias havaianas e com uma latinha de cerveja na mão. Como não estou nem aí, continuo defendendo o meu direito de detestar o verão e de não querer ir à praia. Ficar na minha casa, com minha tv gigante e meus aparelhos de ar condicionado ligados em potência máxima.

17/01/2013

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